"Penetras surdamente no reino das palavras."
Carlos Drummond de Andrade.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O que há de guardado -dentro de nós.

“Estranho seria se eu não
me apaixonasse por você.”
[Nando Reis.]

    Subitamente sinto a perna tremer, o coração disparar como se almejasse expulsar todo o sangue que percorre veias e artérias até desaguar em meus músculos. Percebo que a cabeça pesa pedindo por descanso e que o ar torna-se impossível de respirar. Faz calor além da janela, contudo meu interior é frio. A boca seca, as mãos não param de se mexer freneticamente –queria eu escondê-las- e, pela primeira vez, não posso imaginar o que inebria meus impulsos nervosos.
    Agora está tudo congelado, imóvel, inóspito. Ouço vozes dizendo meu nome e tento me concentrar no que conversam a minha volta. Falam comigo e é até engraçado como converso sem saber completamente nada do que falo. Eu necessitava de algum sinal –vindo do além, quem sabe- que me fizesse perceber que há algo que me corrói e me conforta completamente em você. Seu falar bagunçado, seu silêncio angustiante, seus passos lentos ou sua cara de ‘acabo de acordar’ que por [in] felicidade minha não encaro nem por um decreto.
    Não é porque sua voz rouca me faz perder os sentidos. Não é porque seus óculos escuros encaixam-se perfeitamente desajeitados nas curvas de seu rosto. Não é porque você esboça um enorme sorriso a cada vez que me vê, mesmo sabendo ser por reles simpatia e nem por seu perfume impregnado na orla da minha blusa de manga longa toda vez que me abraça por segundos intermináveis.
    O problema é que enxergo de forma invertida o óbvio. E o mundo é racional enquanto eu, perdida no universo paralelo, tento resgatar um resquício de irracionalidade e trazer para nosso mundo. O problema é que ele não para de girar...
    Sabe, às vezes perco-me em fugazes pensamentos e penso ser melhor afastar-me de você e de toda a bagagem irritante que você carrega. Todas suas manias, manhas e exageros desmedidos que traçam seu temperamento forte e inquebrável: em vão ousava ficar ao teu lado tentando explicar-te o modo “correto” das coisas. O meu modo correto, embora ainda ache que a opinião é minha e da metade das criaturas existentes no planeta. 
    Você é a contradição humanizada. E, numa dessas, foi quando te encontrei calado feito mudo, penetrado no que via à frente: um banco de madeira vermelha, envelhecido e torto. Um casal de velhinhos a conversar sossegadamente lá estava. Falas mansas, olhares distantes. Deveriam refletir sobre a vida, já que esta se aproximava do fim. E eu, ingênua que era, imaginei no instante em que o vi observando, que pudesse estar absorto em pensamentos passar por aquela –que, por sinal, era linda- cena que víamos. 
    Assustei-me quando vi você chacoalhar a cabeça num sinal de reprovação. Certamente não gostara e, obviamente, achara ridícula a imagem de um destino cravado na união de duas criaturas completamente apaixonadas, ainda que a idade os fizesse adoecer.
    Eles morreriam juntos, era de se admirar!
    Eu já sabia, desde a primeira vez em que pousei o olhar sobre tua cara amarrada jurando que não ousaria erguê-lo novamente a te fitar, que estava descaradamente mentindo.
    Mentindo assim como quando finjo que estou bem sem você por perto. Mentindo como quando digo que odeio suas manias e seu modo egoísta de olhar tudo a volta. Assim como suas roupas estranhamente lindas e mal passadas, seu cabelo espalhado e embaraçado, sua sobrancelha fina e despenteada, suas mãos ásperas e grandes, seu vocabulário rude e insensato. Minto quando penso ter passado uma borracha branca e lisa no que pouco há de escrito sobre você nas páginas rabiscadas de meu diário...
    Queria tanto descobrir o que está traçado em meu destino, me ver já crescida e formada, com responsabilidade, tomando decisões importantes –não como agora onde decido o que vestirei pra ir ao colégio ou o que assinalar nas questões alternativas das provas- e pensando na vida de antigamente. Acho que sentirei saudades, mas hoje isso não importa. Eu queria mesmo é ter tempo de sobra pra não pensar em você. Não querer imaginar o que está pensando ou comendo. Com quem está falando ou como fala. O que está lendo nas páginas dos jornais nas manhãs de domingo e se está impressionado com tanta desgraça. Eu queria, sinceramente, saber.
    Engraçado ou decepcionante é imaginar que não posso/consigo fazer nada que, ao menos, me faça aproximar da rua onde você mora. Quando viro a esquina, a covardia se apodera de minhas forças e logo estou eu, caminhando no sentido contrário, me desviando do caminho onde você poderia estar.
    Pode ser que Platão tenha mesmo razão. É ainda algo muito infantil pra se ter certeza e confiar no que faz minhas mãos suarem frio.
    Amor platônico, diria assim.
    O problema é que eu confio no que há de inabitável em mim. Sei que isso não mudará tão cedo –e acho, sinceramente, que não quero mesmo mudar. Está perfeitamente desenhado e brilha como quando a água é iluminada pelos raios de sol ou quando o céu fica cor-de-laranja num lento fim de tarde.
    Acho que quero mesmo é ficar assim, contraditória feito eu, incerta e cheia de dúvidas inacabáveis. Um tanto quanto birrenta e chorona, desastrada, complicada, de lua e destrambelhada.
    Certo é somente o que sinto palpitar e tomar conta de meus pensamentos quando o rádio cinzento e velho de meu quarto arranha algumas notas. Coram-se as maçãs do rosto, abre-se um meio sorriso e a lembrança vaga do que restou e do que ainda há de se escrever dança uma música, caindo vagarosamente feito uma luva:

“E nossa história
Não estará
Pelo avesso assim
Sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
E até lá
Vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora
Apenas começamos.”

    O que falta é coragem pra começar a construir e desenhar o mundo, nosso mundo.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Um pouco mais.

“Mas quem sofre sempre tem que procurar
pelo menos vir achar razão para viver e,
na vida, algum motivo pra sonhar.
Ter um sonho todo azul, azul da cor do mar.”
[Tim Maia.]

Há dias em que me levanto com peso, preguiça do dia que amanheceu. Ao pensar que estar viva é um milagre, os olhos despertam, o corpo ganha força, a alma fica leve, despreocupada, o sol com seus longos raios, imponente feito um rei. Percebo que viver não é tão ruim assim e que muitos se distraem do tempo, perdidos em pensamentos, distantes da lucidez. Enxergar racionalmente é ruim demais, prefiro apegar-me às coisas do coração e ver nelas um modo de escapar da tristeza. A cada batida, um pulso; a cada pulso, um recomeço; a cada recomeço, uma nova história; a cada história, um novo sonho; a cada sonho, a certeza. Certeza de que pode, sim, haver um final feliz.

domingo, 20 de junho de 2010

À vocês, com amor.

    Hoje acordei sem vontade de nada fazer, nada falar, nada respirar. Talvez seja pela noite anterior, cheia de raios luminosos ao céu, a lua apagada soprando um ar triste e pesado. A chuva caía silenciosamente e eu podia ouvir o tilintar que as gotas faziam na calha velha do telhado.
    Acordei quando a madrugada esticava seus longos e negros braços. Forcei para que meus olhos não abrissem. Esforço vão. Logo estava eu, a expressão assustada e com os mesmos olhos arregalados, criando a expectativa de que saltariam para fora a qualquer segundo.
    Não, eu deveria concentrar-me em algo útil, o que naquele momento era dormir. Mas sabia da dificuldade que sempre encontrara em adormecer, depois de despertar. Ah, seria tão mais fácil se me rendesse ao cansaço físico-mental de meu corpo...
    Os músculos doíam, tanta foi a força que fizera contraindo-os pelo frio cortante fora do colchão.
    Eu tinha todos os motivos do mundo para querer desistir de todos os pesos que me aporrinhavam pelas costas o dia/tempo todo. Pensava que levar a situação até aquele ponto seria um erro por demais banal. Aquele não era o melhor momento para refletir, talvez encontrar alguma solução para meus problemas ditos irreversíveis. Contudo, o que fazer se aqueles monstros chegavam, queriam e estavam prontos para devorar meus sonhos?
    No mesmo instante, joguei minhas mãos geladas e trêmulas para fora do cobertor. Juntei-as. Surpreendi-me a balbuciar uma oração. E lá estavam: vocês.
    Apareciam a minha frente, sorrindo. A imagem era tão perfeita e colorida que eu jurava poder tocá-los ao menor impulso de esticar os dedos. Surgiram de repente, como se me chacoalhassem a dizer que estavam e permaneceriam ali, todo o tempo.
    Foi justamente com essa imagem nítida e calma que notei a diferença que fizeram e sempre faziam em minhas distrações e medos, em meus dragões imaginários ou em minhas manias insuportáveis.
    Lembrei-me de quando rolávamos ao chão a brincar daquilo que não tinha nome, das conversas longas e vagarosas onde não tínhamos pressa em terminar tão cedo. Das guerras de travesseiros e dos segredos mal resolvidos que sempre acabávamos por descobrir. Das soluções corajosas e, por vezes, amedrontadas que tínhamos quando tudo não passava de desilusões. Das risadas escandalosas e sarcásticas quando ofendíamo-nos sem intenção alguma de ferir. Dos abraços de desculpas e perdões a qualquer hora, em qualquer lugar, de qualquer modo.
    Lembrei-me até dos ciúmes incontroláveis que tínhamos quando um de nós aproximava-se de outra pessoa. O medo de perder-nos era tanto que o rosto fechava-se numa expressão de reprovação. Logo, alguém percebia e esboçava um largo sorriso dizendo: “Eu estou aqui, não tenha medo.”
    Lembrei-me dos esguichos d’água que soprávamos quando alguém dizia algo que, de tão engraçado, melhor seria cuspir tudo aquilo que havia na boca do que perder aquele momento de risadas desprevenidas. Dos conselhos, das fraquezas, das angústias e do reconhecimento. Reconhecer que se está errado é a melhor virtude de um ser humano, depois da humildade. E vocês ensinaram-me isso. Tudo isso.
    As lágrimas que derramamos, a saudade, a falta que sentimos quando estamos longe é prova de que há mais do que laços de sangue, há mais do que amor que verte sangue em sua cor. Há mais.
    Involuntariamente, despertei-me do pensamento longe e, quando pude perceber o que fazia, estava a olhar fotos. Nossas fotos. Colocava-as em meu peito e as apertava, como se aquele gesto fosse levar-me pra mais perto de vocês.
    Notei que não havia mais sonhos ruins. O vento lá fora soprava calmo e tranquilo. A tempestade passara.  Com o pijama velho e listrado que vestia, sentei ao pé da cama e pus-me a cantarolar alguns versos. Eram velhos versos. Como se não bastasse, abri um empoeirado livro onde guardava o que, na vida, achava o bastante. Lá dizia Vinícius de Moraes:

“Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.”

    Foi em vocês que eu depositei tudo o que lera embaraçada entre lágrimas frenéticas e desesperadas. Mas, pela primeira vez, eram de alívio. Uma sensação como quando sinto o cheiro de terra molhada. De quando, tremendo de frio, aqueço-me com a água quente brotando e alimentando minha pele com calor.
    Se pudesse me estenderia até a eternidade, porém, como dizia meu mestre Rubem Alves, é preciso escrever curto porque a arte é longa e a vida é breve.
    Eu os amo, o que sou os devo e sou feliz por ter vocês, amigos.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Memórias do que [não] ficou pra trás.


   Ainda hoje, tempos depois, me questiono qual o motivo por termos separado o calor de nossas mãos entrelaçadas. Era bom saber que haveria algo que cairia feito luva, aquecendo o frio que, outrora, ocupara seu lugar.   Você não voltou e eu, absorta em pensamentos e caprichos da imaginação, vivo a questionar-me se fiz, realmente, a escolha certa.
    Abro a caixa de entrada de meu e-mail abandonado há tempos e lá está o que fui desencorajada em apagar. Seus parágrafos mal pontuados e seu vocabulário ralo. Eu podia imaginar, a cada linha de visão embaçada que percorria, o modo com o qual você falaria tudo aquilo, olhando internamente certos olhos que, talvez por acaso, seriam os meus.
    E você sabe –muito bem, por sinal- que se o que fizemos indiretamente tivesse acontecido de fato, o destino encarregar-se-ia de manter-nos unidos, assim como fazia em nossos encontros mal marcados.
    Surpresa era sua expressão ao ver-me. Por certo uma mescla de sensações das quais eu não conseguia definir embora quisesse, ingênua que era, com todas as forças que conseguia sugar do que restava –se é que houvesse- de sangue de meu rosto.
    O seu sorriso torto era meu grande –e talvez maior- medo. Eu sabia que ele quebraria qualquer cara amarrada e, por Deus, com a minha não seria diferente.
    Logo estava eu, que tanto queria enraizar meus pés ao chão, descontraindo os músculos de meus lábios a esboçar um largo sorriso. Sim, aquele do qual você tanto falava.
    Era involuntário não fitar a imagem que formava-se ante minha expressão embaraçada e não estar extremamente grata àquilo. Eu sempre percebia e notava, embora descontrolada de meus reflexos que você, de fato, rematava aquele imenso espaço inabitado de minhas manhãs/tardes/noites assustadoramente solitárias.
    Espantava-me com as pessoas que caminhavam sozinhas a conversar conscientemente juntas e cheias de si. Eu, em contrapartida, ansiava desesperadamente ter alguém. E, de fato, tinha. Verbo passado, completo, [in]definido.
    Mas, sabe, creio que não houve um ponto final. Acho que convenço-me disso a cada vez que lembro-me de suas últimas palavras, aquelas que eu lia e, [in]consciente de minha atividade psíquica, traduzia em sua voz, nada parecida com veludo ou algodão. Era áspera e sem timbre, por vezes afinava-se e eu recordo-me, com todos os detalhes possíveis, de quão irritado ficava quando eu repetia, em tom sarcástico, o que acabara de dizer.
    Seu jeito inocente de menino irresponsável e sem importância fizeram de mim alguém melhor.
    Encontrei a felicidade e deixei-a escapar.
    Pra te enganar, escondo nas linhas que escrevo o horror que sinto de quando recorda-me a memória daquela noite. A música parou, no salão havíamos nós. Eu e você. Nada mais. Ninguém mais.
    Seu interior exalava um frio áspero, a feição vazia, os punhos fechados. Meu único desejo era ver-te distanciando-se de meus olhos cerrados. E quanto mais fugia, mais aproximava-se de mim. Eu nunca o odiei tanto. Nunca o joguei para tão longe, como uma força repugnante que apossava-se de meus pulsos nervosos.
    Mas o problema é que eu te queria quero, o problema é que não poderia me afastar do óbvio, negar o óbvio: você estava está bem ali, a minha frente.
    O problema é que eu te odeio, te amando.