Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia.
Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca;
pisca e estuda; pisca e ama; pisca e
pisca e estuda; pisca e ama; pisca e
cria filhos; pisca e geme os reumatismos;
por fim pisca pela última vez e morre.
por fim pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre? – perguntou o Visconde.
- Depois que morre vira hipótese. É ou não é?"
Monteiro Lobato.
Às vezes é preciso que se passe uma borracha branca e macia no que acontece nessa vida amarga, feito café sem açúcar.
É preciso mais doce, mais doçura. Que as pessoas saibam amar o que outrora odiavam e que dêem valor nas mais singelas coisas que se passam no decorrer das horas fugazes.
Mas ninguém ainda não aprendeu nada.
Desespero-me ao ver nas ruas velhinhos, as costas curvadas, trabalhando arduamente, sem perspectiva alguma, sem esboçar um breve sorriso.
Talvez eles sejam felizes. Talvez. É tudo tão incerto, tudo tão vago, passageiro. Estranho é ficar imaginando o porquê de as coisas serem como são. O fato é que tudo acontece tão perfeitamente... É tudo tão ligado feito teias de aranha: cada vértice com sua aresta. As imagens simétricas, refletidas como espelho n’água, como gota despejada e caída silenciosamente no chão; vai entrando, penetrando vagarosamente em terra seca. Aos poucos vai sumindo, devagar. Logo desaparece, vira pó novamente.
Pó que entra nas narinas ressecadas, logo surge um espirro. Alto, rápido. E assim é o tempo...
O tempo é longo, o tempo é curto. O tempo corre. O tempo lerdeia. O tempo cai. O tempo para.
Segundos intermináveis, minutos corridos quando, enfim, o tempo morre.
Morre e vira o quê?
Vira pó. Pó que não perde sua secura, pó que nada fala, nada vê, nada ouve. Pode ser fino, grosso, áspero ou macio. Depende de como você o peneirou, depende de como você o cuidou. Depende de como você o enxergou. Ele pode ser bom ou ruim, tudo é a forma como você o enxerga. Ele pode até ser Deus. Pode ser aglutinado, formando uma pedra dura e fria. Mas ele pode ser brilhante também. Pode trazer a alegria de crianças que, olhando para o céu, pedem sonhos a essa poeira. Poeira de estrelas.

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