Dia chuvoso é sinônimo de melancolia.
Ao olhar as nuvens cinzentas que cobrem o céu não me dá senão outra impressão.
O tempo escorre lentamente, a água corre agitada no meio-fio. O sol, preguiçoso que levantou, não põe à mostra seus longos raios, esconde-se atrás do algodão infinito e nem sequer seus longos braços dourados estica.
O homem que espera ansioso o sinal vermelho brilhar para atravessar a avenida encolhe-se com o vento áspero que sopra os olhos cansados. A expressão distante das pessoas ao caminhar vagarosamente pelas ruas impressiona-me e logo penso se todos os despertadores resolveram acordar mais cedo.
O olho gira, a imagem a frente embaça, logo desaparece. O som de fundo se esvai e a cabeça pesa como se implorasse por apoio. Os pensamentos se devaneiam. Nada mais resta à memória: cochila-se.
O trânsito é lento, os movimentos corporais também. Tento me refugiar em algo, mentindo pra mim mesmo que todas minhas ações ocorrem, sem exceção, em câmera lenta.
Mas era estranho ver o tempo correndo vagarosamente. Aquele cara que sempre corria na avenida de manhã, agora tinha movimentos de quem corre sem pressa. O jornaleiro que dirigia atropelado sua motocicleta agora analisa todas as faixas pintadas ao chão, obedecendo-as.
No fundo, eu queria compreender o que se sucedia. Mas era em vão. Sem sucesso forçava os neurônios a fazerem suas ligações mais depressa, e eles nunca estiveram tão sem vontade de exercer seu único ofício.
Começava a perceber gotículas de água que escorriam pelos fios delgados de meu cabelo. Desciam silenciosamente, passando pelas marcas de expressão de minha testa e, ante a meus olhos, podia vê-las caindo, como se estivessem a bordo de um para-quedas.
Nada era fugaz.
Por um momento, cheguei a pensar – e com a mais absoluta certeza, uns grandes minutos haviam decorrido – se era alguma fantasia de alguma imaginação perturbada.
Haveria eu de estar nervoso por algum motivo vão? Por que aquilo acontecia e a minha impotência em simplesmente não poder fazer nada era cada vez maior?
Eu já cansava. Náuseas enojavam-me. Doía.
No meio de toda aquela alucinação, sentei a beira da calçada e foi difícil de conseguir deitar-me no chão gelado e áspero. Talvez daquele modo eu ficasse melhor – não tão ruim, na verdade – e, ao longe, ouvi o som macio de papel. Não por acaso, era aquele que estava em meu bolso desde o dia anterior.
Incessante, forcei-me a abri-lo e tamanha foi minha surpresa.
“Amanhã, logo após o amanhecer. Segundo quarteirão da Rua 3.”
Tudo o que mais procurava, naquele momento, era ao menos lembrar-me qual o motivo daquela anotação naquele pedaço de papel amassado. Decidi que, então, seria melhor ir até o local que lá estava descrito a tentar descobrir.
Busquei nas raízes mais profundas ânimo em levantar-me e caminhar por muito tempo novamente, sem andar sequer meia légua. Acho que a sorte conspirava em meu favor. Não estava muito distante de mim a segunda quadra.
Concentrei-me em somente andar. Agora a rua estava apinhada de pessoas cheias de sacolas coloridas de compras. Pareciam felizes.
Emendei um sorriso torto para um garoto que andava distraído com sua mãe. Era difícil relaxar meus músculos e notei que para ele a compreensão era demorada, mas seu sorriso de agradecimento não parecia esgotar forças.
Surgiam-me flashes de vozes e assustei-me ao perceber que agora ouvia sons. Aos poucos, o sol iluminava a terça parte da esquina e eu não demorava tanto para dar um passo. Levantei minha mão para alcançar o suor de meu rosto e o reflexo de meu braço parecia ágil.
Aquilo era tudo o que de mais havia de estranho, mas eu não queria pensar em respostas. Sim, tudo estava voltando, retornando ao seu lugar.
O relógio da Catedral batia agora: nove horas. O tilintar do sino ainda parecia-me distante, mas eu podia ouvi-lo e enorme sorriso esbocei de satisfação.
Distraído atentava-me a simples coisas que antes não faziam menor sentido e, sem perceber, dobrava a Rua 3.
Fixei em olhar, e somente olhar a frente.
E lá estava ela. Andava depressa, olhando para seu pulso.
Ao olhar-me, seus olhos contraíram-se numa expressão de pena. Estava linda.
Suas únicas palavras foram estas: “Lamento muito em fazer-te esperar tanto tempo.”
Abriu então um pacote de presente amassado, e de dentro dele saiu um pingente em formato de coração.Era vermelho-sangue.
“Gostaria que nosso encontro tivesse acontecido ao mesmo tempo, e que você não estivesse chateado em aguardar minha chegada. Este é o meu coração, que agora é seu. Feliz Aniversário.”
Naquele instante de segundo eu passei a acreditar em destino.
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