Andava distraída, dispersa. O lábio úmido dava-lhe a sensação de sede. Ou seria o contrário?
Mal sabia ela o que a esperava. Certo calor percorreu-lhe a espinha e um estranho som invadia a terça parte de sua audição aguçada. Era inverno.
Havia calor dentro de si, mas o engraçado era que não o traduzia, tremia com o frio ar que bagunçava-lhe os longos cabelos negros.
Havia também perguntas. A cabeça doía e davam-lhe náuseas só em imaginar respondê-las. Ela não sabia o que era o amor. Desabrochara nela feito uma flor murcha que precisa ser podada até o talo para então, crescer. No solo fértil de sua imaginação o descrevia como algo perfeito e infinito, desses que assistia nas novelas noturnas da velha televisão de sua casa. Parecia-lhe, agora, o avesso. Não havia um arco-íris de cores vibrantes por todos os lados, ela não o enxergava. Não caminhava sorrindo como se tudo fosse brincadeira de roda infantil, sempre retorcia o canto direito da boca numa expressão de desdém.
Era diferente de tudo o que já sentira, mas, inocente em suas reflexões dizia desapontada: “Por que não é lindo?”
Ela não acreditava que algo tão intenso e profundo como lhe diziam fosse apenas aquela bobeira na qual estava afundada como um submarino n’água.
Seus sonhos eram seus piores pesadelos e temia a noite seguinte só em recordá-los. Aquele frio na barriga inconveniente a irritava, arrepiando-a.
Flutuava deitada em sua velha colcha de retalhos coloridos de encontro ao céu que responderia o que era toda aquela mescla de sensações estranhas interiores.
Ela não sabia o que era o amor.
Mal sabia que ele chegara. Mal sabia que tornar-se-ia permanente. Mal sabia que na sua ausência não ousaria respirar. E que ele era, sim, mesmo em todas suas contradições, lindo.
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