"Penetras surdamente no reino das palavras."
Carlos Drummond de Andrade.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Sobre gostar.

    A vida só tem sentido a partir do momento em que a vontade e motivação passam a agir ao encontro de libertar-se das amarras que a rotina impõe. Aliás, quem disse que há horário e tempo para cada coisa?
    Para mim, pobre mortal, nada nesse mundo enorme é certo, sólido. Tudo muda, tudo gira, tudo vai, tudo é fase.
    Já imaginou o terror de ter de escovar os dentes diariamente às seis da manhã ou de almoçar a marmita requentada quando o sol no céu aponta o meio-dia?
    Não! Gosto mesmo é das incertezas e contradições. De tomar banana-split na sorveteria da esquina no frio congelante do inverno, de comer pizza amanhecida e gélida com ‘pingado’ escaldante no café da manhã, de vestir o pé com meia de lã em pleno mês de janeiro. Gosto de andar... É, andar a pé, descalça, caminhando sem direção nem rumo, sem pressa nem destino, observando as folhas caindo silenciosa e vagarosamente das copas das grandes árvores nas ruas apinhadas de gente.
    Meus olhos são minha companhia, sempre os levo a passear. E como eles gostam! Gosto de olhar a dona de casa varrendo a calçada de sua avenida com aquela grossa vassoura, daquelas que, ingênua imaginava há muito tempo ser de bruxas ou feiticeiras malvadas. Gosto de ver o entregador de Coca-cola andar apressado, de olho no engradado de seu caminhão ou daqueles casais velhinhos atravessando o sinal vermelho, os braços enrolados, a expressão pacífica, o olhar distante.
    E sabe de quê me recordo? Daquela época boa em que sentava a beira da pia, alongando os finos e curtos bracinhos para pegar o último bolinho de chuva da vasilha vermelha de vovó. Ah, eu era feliz e não sabia!
    Vivem dizendo essa expressão, não é? Pois, abelhuda que sou, acredito que bom mesmo é o hoje, o agora, o momento único que, por sinal já passou quando acabei de escrever este parágrafo.
    A vida é corriqueira, é fugaz, mas eu não sou, vivo cada minuto em seu segundo, cada passo em sua perna, uma coisa por vez, afinal, não há receita para a felicidade, ela pode ser o que eu quiser, certo?
    Você deve estar pensando consigo: “Poxa, mas que lerda, não?” Talvez. Mas, sobretudo, feliz.

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