"Penetras surdamente no reino das palavras."
Carlos Drummond de Andrade.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Por detrás da janela.

    A tarde estava monótona, quente –assim como era em quase todos os dias- e nuvens íngremes do céu anunciavam a chuva próxima.
    Do oitavo andar olhava o chão e, por um instante a visão turvou-se de um cinza-escuro que apagou-lhe a memória.
    Era assim que sempre acontecia quando, num instante transcorrido, desviava sua atenção para as pessoas andando apressadamente na avenida que até parecia movimentar-se abaixo.
    Era engraçado –e isso despontava-lhe um meio sorriso- imaginar que, por trás de cada passo apertado ou de outro que pouco importava-se com o tempo, existia alguém.
    Alguém que outrora também tivera infância, seus traumas e desejos, manhas e manhãs de sono atrasado. Fora gerado por uma mãe e chamou-a assim quando levou o primeiro tombo de bicicleta; chorou quando seus próprios instintos avisavam-lhe que logo o estômago doeria ou quando tudo o que queria era um simples cafuné. Alguém que frequentou os primeiros anos do maternal em alguma escola de esquina e, junto com os comentários bizarros das tias que tomavam chá da tarde em sua casa de que havia crescido sempre mais, tornou-se –ou fora obrigado a tornar-se- responsável e terminou o colegial. Assustou-se quando presenciou a cena de estar crescendo, desenvolvendo-se. Surpreendeu-se a criar desejos e obsessões, vontades e manias, ora desagradáveis. Nem mesmo suportava seus dias ruins.
    Sorriu quando em mãos estava o diploma de universitário graduado e, olhando para o público irradiando energia, percebeu que seus olhos começavam a encher-se d’água.
    Era a vida passando e junto dela tudo o que já fora, o que preencheu o pensamento de recordações.
    Um álbum de recordações agora folheava. Passava os dedos vagarosamente folha a folha, foto a foto; inebriou-se de algo indefinível, assim como a paz ausente há tempos. Desejava que essas sensações se materializassem e permanecessem ali, como estavam. Mas não, momento fugaz. Acabou. Passou rápido, depressa. Correu. Corroeu. Apagou-lhe e o próximo sentimento foi de ter estacionado –ou talvez aterrissado- no mundo real.
    Ali estava, o pé dormente acima do tapete aveludado e tingido de um vermelho-sangue que assustou-o por um instante e, num piscar de olhos, levantou-se correndo através do corredor iluminado por um fio amarelado de luz e surpreendeu-se a guardar todas aquelas malditas lembranças a que se metera mexer. Pra quê precisava delas justamente quando olhava fixamente para o tempo transcorrendo a sua frente? Afinal, quantas horas haviam passado desde que entrara naquele túnel febril enquanto olhava à avenida?
    Importava-se com o que viria a seguir, com qual seria a próxima cena a que mergulharia de cabeça sem pressa de voltar. Era tão satisfatório e intenso sentir-se assim, despreocupado, distante, sem tickets de retorno...
    Era o sonho no qual queria viver eternamente, era sua auto-paralisia, cena congelada, esta que era sua.
    Eram somente lembranças passadas.
    Mal sabia ele que, todas, sem excetuar-se alguma, compunham um futuro que, não por acaso, era seu.

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