"Penetras surdamente no reino das palavras."
Carlos Drummond de Andrade.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Distância.

"O meu tempo e o teu, amada,

transcendem qualquer medida.

Além do amor, não há nada,

amar é o sumo da vida."

[Carlos Drummond de Andrade]

    Hoje acordei disposta a fazer alguma loucura, algo que me faça sentir diferente de tudo o que fui até agora. Será que fui mesmo alguma coisa?
    Todos somos.
    Independentemente se fico o dia inteiro num ócio completo dentro de casa, escondendo-me de mim. Se é manhã, penso em ver o sol se pôr. Se há café quente na mesa, prefiro chocolate quente, e se não há, melhor que não tome nada. Irrito-me com minhas próprias tolices.
   Mas, sem mais rodeios, hoje acordei com vontade de andar. É, andar por aí, sem direção nem destino. Sem rumo e sem pressa de chegar. Sozinha.
    Acompanhada da brisa leve que sopra nas tardes de verão, leva meus cabelos pra longe, ora pros olhos. Incomodo-me. Se distraio-me, logo alguma criança com sua bicicleta desajeitada aparece-me a frente e, se não há o pensamento rápido do desvio, ela, com sua inocência explícita, chocar-se-á contra a pessoa mais desajeitada e desastrada desse mundo: eu.
    Pensando bem, esse jeito de definir-me já é quase involuntário. Não que eu seja só tombos e caídas, mas se consigo cortar-me com uma reles faca despontada, quem dirá com a lata de molho vermelho que insisto em abrir quando a massa está quase cozida e borbulhando na panela de inox do fogão?
    Insisto a fazer coisas que outrora condenava, e, por tantas vezes frustrada, decidi que a partir de hoje não mais abrirei a boca a dar opiniões. De que adianta criticar ou consentir se sei, com a mais pura certeza que existe, que irei fazer o que antes afirmei ser errado?
    Não que isso esteja certo, mas creio mesmo é que estamos nesse mundo cão de passagem. Aprendo muito mais com os desastres do que com as vanglórias. Se quer saber, aprendo até com o que é mudo: o silêncio.
    Estar sempre cercada de pessoas, ambientes e ruídos me chateia, há horas em que preciso estar cercada de mim. E só. Escuto o vazio, encho-me d’uma paz interior desconhecida e... Onde é que estava?
    Por vezes acho o rosário de pérolas azuis que ganhei de vovó, agarro-me a ele e penso estar protegida, como um escudo de algum cavaleiro valente que trava uma batalha sabendo de sua vitória, ao fim. E durmo. Sono pesado que me embriaga até o raiar do sol. Já começou o dia seguinte e assusto-me ao ver como as horas correram e ali estou eu, exatamente como me deitei. As pernas tortas e os braços esticados para fora do colchão. Eu cresci. Já não sou aquela criança curiosa que distraía-se facilmente com uma tampinha de alguma vasilha colorida da cozinha. Hoje sou eu quem cozinha.
    Sempre quis e pensei em crescer, tornar-me uma mulher de quadril largo e seios fartos, responsável e culta. Mas – como dizia o velho ditado - querer não é poder, definitivamente. Herdei os cabelos encaracolados e sedosos que mamãe tinha; sua mão fina de dedos compridos e ágeis; o pé dum tamanho enorme. Esse último foi de papai. Ah, como eu os amava.É bom sentir o cheiro de terra molhada ou de chuva após o temporal de Janeiro. É bom conseguir o que se deseja com todas as forças, seja um prêmio Nobel ou um par novo de sapatos. E é bom ter a quem amar...
    Ainda os amo, com todas minhas débeis forças, mas eu os queria aqui, exatamente ao meu lado enquanto acabo de passar um fio grosso de linha num suéter descosturado.
    Eu daria tudo pra tê-los de volta. Mas não há nada que me una à outro universo. Eles se foram, num estalo, nem tive tempo de dizer o que queria dizer - ou fazer o que queria fazer-.
    Dizem que nos arrependemos tarde demais, não é? Essa é a única coisa que me convence: quando tudo se foi, quando tudo se vai, você percebe que não há mais tempo. E, o que mais me perturba, ele corre depressa, mas não quando se trata de distância eterna.
    Nunca proferi alguma palavra que demonstrasse o que de fato sentia quando os via chegar da quitanda de esquina, ou quando eu perguntava o que havia entre seus dedos e logo os abriam. Ali estava o doce listrado de amarelo e vermelho de que tanto gostava.
    E era assim, humilde que éramos. A reunião em volta da mesa para o jantar era sagrada. Quando algum faltava, lá estava seu prato. Não existia ausência. Fomos os três em um só. Fomos.
    E hoje eles são o que sou. Riem meu riso e choram água com sal em meus olhos. Ouvem o silêncio em que mergulho todos os dias. Talvez assim, possa encontrá-los. E eu os encontro, em meus sonhos. O sangue que verte em minhas veias já correu em suas artérias. Secou-se, mas está vivo e aquecido, em mim.

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