"Penetras surdamente no reino das palavras."
Carlos Drummond de Andrade.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Aos dezessete.

   
"Enquanto espero
Escrevo uns versos
Depois rasgo"
[Adriana Calcanhoto.]

    Argh, essa fase transitória que vive-se aos dezessete anos deve ser – ou é - a pior delas. Não que eu tenha que decidir a vida assim, do nada. Mas é incrível como as coisas mudam o tempo todo – e pra pior -. Cadê minhas bonecas em cima da cama ou meu jogo de tabuleiro que fazia-me a alegria nos fins de tarde?
    Não, responsabilidade, juízo e decisão. São essas as três palavras que me aporrinham pelas costas. Até a época de colegial, não há nada a se fazer porque, obrigatoriamente pra conseguir-se um emprego decente, precisa-se do certificado de conclusão do Ensino Médio. Mas, depois que tudo isso chega ao fim, a bola de neve acumulada no topo da montanha simplesmente desbarranca-se sobre sua cabeça e, é hora de saber simplesmente o que vai ser pelo resto dos dias.
    Você chora de saudade dos amigos que não verá diariamente e chora porque você tornou-se, sem querer nem pedir, um adulto estressado.
    É até engraçado e bizarro como já acostumamo-nos com a ideia de decidir-se facilmente. Mas não se tratam de opiniões maduras. É muito fácil saber o que vai vestir pra ir ao curso de inglês ou a matéria do próximo teste de Biologia. Difícil é decidir-se sobre o futuro. Vestibulares, universidades federais, provas de conhecimentos gerais, mercado de trabalho, renda mensal...
    Sem contar que, o desespero aflora quando as notas começam a aparecer em listas e você nunca encontra seu nome. “Pronto, mais um ano perdido” é o primeiro pensamento. Agora a cabeça está a milhão e você se sente uma inutilidade da natureza. Não dá pra analisar as notas de corte porque sua mão sequer deixa de tanto que treme. Ok, próximo passo: anotar telefones de dez cursinhos pré-vestibulares. Mais dois semestres com fórmulas de Física, conceitos de Geografia, versos de Literatura, contas colossais de Matemática e diálogos para tradução de Inglês.
    Não que eu já não tenha me acostumado a passar madrugadas em claro, estudando, mas seria tão mais fácil se eu decidisse ser algo mais simples, que não necessitasse de certificados nem aprovações. Mas o labirinto é sempre mais instigante porque você precisa encontrar a saída para ver-se livre, e isso é, claro e óbvio, muito mais demorado e radical do que um corredor reto e todo iluminado onde o fim é a porta que está ali, a sua frente.
    Qual é a graça de conseguir o que se espera com facilidade? Logo estará você a procura de algo que faça você sentir-se... importante.
    A gente gosta mesmo é de adrenalina e competição – ou de sofrer, quem sabe -.
    E é realidade quando os pais passam a mão na cabeça e dizem num tom baixo de voz: “Filho, tudo tem seu tempo, não se desespere.”
    Mas NÃO, estamos cheios de hormônios dispostos e que querem o tempo todo que tudo seja rápido, pra ontem. E sim, faremos/falaremos o mesmo a nossos herdeiros. E sim, daremos altas gargalhadas desse tempo engraçado e cômico que passamos, esperando merecer tudo e, no mesmo minuto, sentindo-se o mais incapaz do universo.
    Adolescência. É a vida transmutando. E não adianta querer dizer nada que conforte, o que é certo é o que se acha até que consigam provar-lhe o contrário.
    O mundo que nos aguente, ele é grande o bastante para isso.
   E quando estivermos, finalmente, ao Baile de Formatura, recebendo a graduação tão esperada, quando o canudo chegar em nossas mãos, não terá mais graça. “Quero mesmo é saber quando será o resultado pro curso de pós-graduação ao qual me inscrevi.” E por aí vai, mestrados, doutorados, quem sabe até outro curso superior. O ciclo nunca acaba. Todo mundo possui um ser desesperado dentro se si, somos seres humanos.
    Tenho certeza de que quando tiver sua casa própria numa praia lindíssima, o que queria mesmo era que fosse numa praia deserta. Ter um iate não vale a pena, melhor mesmo seria um Titanic. E o cenário não se inverte, os atores entram e saem o tempo todo. A grama do vizinho é sempre mais verde, não?
    Agora, diga-me, pra quê descabelar-se se sabemos que nunca iremos aquietar essa maquininha de fazer sonhos que é você? Como dar o próximo passo sem antes fantasiar que, no fim do arco-íris sempre tem um pode de ouro, e você poderá ser o dono? Pois, pobres que somos, devemos mesmo é sonhar, afinal, é bom, bonito e nada de capitalismo, cortesia da casa, “na faixa”, é de graça.

Um comentário:

  1. Ai, Tata!
    To pra achar definição melhor do q sentimos nessa fase, viu...
    Gostei demais!
    Saudadeee! :D
    beijos

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