"Penetras surdamente no reino das palavras."
Carlos Drummond de Andrade.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Beatriz.


"Me leva para sempre, Beatriz. Me ensina a não andar com os pés no chão." [Ana Carolina]
    De repente, da janela do meu quarto eu vejo tudo escurecer. Faz frio. Os raios quentes do sol que batiam na persiana se esfriam. Anoitece.
    Anoitece meu interior, coloco a palma da mão em meu peito para sentir se ele ainda bate: o coração. Sim, respiro lentamente, um ar ofegante, pausadamente cansado, mas é como se o mundo houvesse dado as costas. Meu mundo me traiu, deslocou-se de rodinhas de onde sempre estivera.
    Eu estava em paz, tudo estava em paz. As pálpebras pesam e eu procuro concentrar-me em não dormir, afinal, havia hibernado por quinze horas. Dormi verão e acordei in[f]verno.
    Melhor seria se me fechasse dentro da casca de egoísmo a qual me escondi pelos últimos dias. Era confortável pensar que estivera só por tanto tempo...
    Ao menos não teria de ir ao escritório à tarde. Estava tudo fechado; era Feriado Nacional e, mesmo que não fosse, as chaves de minha sala estavam dentro da mala amarela a qual fiz questão de trancar no porta-malas do carro. Bem longe de mim.
    Meu desejo seria estar, nesse momento, num lugar deserto. Queria sentir cheiro de terra, de água e de verde. É, eu estou sozinha, dentro de casa, um ventilador chato chacoalhando suas pás e soprando o ar rarefeito pelo quarto abafado.
    Mas o seu cheiro ainda está impregnado em tudo o que é meu - que era seu -. Meu travesseiro - aquele que já botei na máquina de lavar pela décima segunda vez -, ainda exala um perfume amadeirado. Seu perfume.
    Por falar nisso, seu aparelho de barbear ainda está no banheiro. Sua toalha de rosto ao lado dele, exatamente como você deixou. Sua caixa de Cotonetes ainda permanece intacta na primeira gaveta do criado-mudo, entreaberta. Seu chaveiro de uma Torre Eiffel envelhecida pendurado na porta, seu gel fixador de cabelo azul na penteadeira, suas lentes de contato mergulhadas no soro fisiológico, seu relógio de pulso descascado na estante e tantas outras coisas a que se apoderou. Tudo para enfeitar algo invisível a meus olhos: a aparência.
    Você se vestiu esse tempo todo, investiu em futilidades e babaquices. E eu, coitada, imaginando ter-me apaixonado pelo galã da novela das oito, deparo-me com o mais descarado vilão de filmes bangue-bangue.
    Logo eu, que sempre prometi a mim mesma nunca ceder a esse seu tipinho, me faço de vítima?
    Pior de tudo é que é justamente esse seu sorriso torto e esses seus dentes amarelados que me fazem feliz. É essa sua cara marrenta de “me deixe ficar aqui por mais dez minutos” que me fazia ficar observando-o dormir na cama desarrumada pelo tempo que fosse. É esse seu jeito de “ninguém me ama, ninguém me quer” que sempre contava para, depois de ter me despedido, voltar correndo só pra abraçar-lhe e dizer, mais uma vez, que era contigo que queria ficar pelo resto de minha vida.
    É piegas repetir tudo isso pro espelho, de novo e depois de tantas vezes, mas eu me olho e não enxergo-te atrás. Hoje sou só. A imagem refletida é minha. Talvez esteja refletindo você, longe dos meus cômodos. Longe da sala onde esticávamos nossos pés, deitados, e esfregávamos nossas meias pra talvez esquentar o frio que sentíamos – dentro de nós -.
    Eu só ainda não entendi o que você foi fazer longe daqui, longe do s[m]eu mundo. Saiu sem nada dizer, sem alguma explicação. Não sei porque ainda procuro respostas. Acordei e...


“Eu não entendo, sei que estar ao teu lado é o que eu mais quero com todas minhas forças embora meu desejo de sair, livre por aí, sem direção, seja maior. E eu guardo comigo tudo o que vivi junto de ti. Guardo na memória nosso primeiro abraço e, se quiser, ainda posso recordar a imagem de nossos longos braços se entrelaçando e formando um só. Você me aquecia quando ventava lá fora e, como naqueles filmes americanos, levava teu guarda-chuva a me acompanhar até o carro, abria a porta e eu me despedia de ti, você logo adivinhava o que eu faria. Jogava-o para o alto e saíamos correndo, pisando em poças sujas na avenida. Eu a rodava e era como se o mundo estivesse rodando também, nossos olhos fechados.
Agora, os seus estão fechados, você dorme. E eu te olho. Olho pensando em como estará quando acordar e ler isto que agora escrevo. Não que você não sobreviverá sem mim, mas já havíamos enfiado nossas garras na terra e, sim, imaginava que ali elas se fixariam, firmes. Nada as deteria, exceto um sonho. Sonhei com tudo o que planejamos juntos, nossos filhos pulando e cantando as primeiras músicas que aprenderiam com a professora no primário. Sonhei com o cheiro do jantar fresco que você prepararia quando chegasse cansado depois de mais um dia exaustivo de trabalho, jogaria a maleta ao chão e correria desfazer o rabo de cavalo, afagaria seus cabelos e adivinharia num estalo: fragrância de camomila, aquela que eu adorava sentir em seus fios.
Sinto em dizer que não fui um sonho teu, e há agora uma faca afiada cortando-me o peito por estar usando o passado dos verbos a que me refiro. Eu, sinceramente, não tenho o que dizer, quero fugir de mim, quero tentar me enganar dizendo que tudo acabou quando poderia apenas começar.
Não posso esperar mais, um minuto apenas e eu desisto de ir pra ficar aqui, te olhando. Mas você irá despertar e eu não terei coragem. Sou mesmo um covarde e espero estar bem longe daqui quando você pensar em sair correndo a gritar pela avenida recheada de folhas secas. Eu não estarei mais por perto. E mesmo se estiver a te observar, uma vez que passar pela porta, não haverá retorno. Minha passagem é só ida. E assim foi com nosso amor.
Esse algodão que está agora a olhar representa tudo o que fui a você: simples ilusão. Parece nuvem, parece fumaça, parece até doce. No fundo, não passa de algo seco, sem gosto, sem cor, sua maior utilidade é secar machucados, cicatrizes. Espero que quando o pegue, seque seu coração.
Prometa-me uma única coisa, antes que eu me levante e corra por aí, sem direção? Se houver volta, não aceite, não me abrigue. Tranque as portas, troque todas as fechaduras; eu ainda tenho as chaves e sei que não irei me desfazer delas. Nem poderia, foi ao abri-las que eu encontrei a felicidade. Estou me despedindo dela, pelo resto de mim e do que resta de mim. Não há perdão, por isso não irei me referir a nada que te provoque piedade. Você não merece, não ME merece.
Seja feliz!”


    Foi arranhando as unhas compridas pela folha áspera que senti a boca amarga e, num súbito delírio de exterminar-me do universo lembrei-me do maior sentimento que haveria de existir. Havia parte dele comigo a qual ninguém nem nada poderiam tirar. Eu lutaria, com todas as forças e com as garras que restaram do arsenal que antes possuía, estas que ainda eram minhas, para que a felicidade que desejou-me se materializasse. Não era mais uma, não mais singular. Éramos plural, dois.
    Senti algo mover-se dentro de mim e, não mais fugaz, era permanente. Passando os dedos pelas linhas de minha barriga, eu a sentia, ele estava ali, fisicamente visível. Era real, não fazia mais parte de mera ilusão criada durante todo meus dias vividos com medo dos meus próprios olhos.
    Eu chorava, mas eram lágrimas de algo inexplicável, indizível. Estava pronta para enfrentar uma guerra se preciso fosse, mas viva. Seu coração batia, eu podia sentir, junto do meu.
    Seu nome será Beatriz: aquela que é capaz de trazer de volta a felicidade já perdida, sonhos de algodão.

2 comentários:

  1. Adorei ! li alguns... mas, da onde vc tira tudo isso ?
    continue sempre.
    e depois eu comento com vc ;D
    per aspera, ad astra!

    ;*...
    Thi.

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  2. Tataa!Muito Lindo!Entendo porque você se apaixonou por esse texto!Parabéns!=)

    Jeh

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